13 de junho de 2017

Camões, poema de Miguel Torga

CAMÕES

Nem tenho versos, cedro desmedido,
Da pequena floresta portuguesa!
Nem tenho versos, de tão comovido
Que fico a olhar de longe tal grandeza. 

Quem te pode cantar, depois do Canto
Que deste à pátria, que to não merece?
O sol da inspiração que acendo e que levanto,
Chega aos teus pés e como que arrefece.

Chamar-te génio é justo, mas é pouco.
Chamar-te herói, é dar-te um só poder.
Poeta dum império que era louco,
Foste louco a cantar e a louco a combater.

Sirva, pois, de poema este respeito
Que te devo e professo,
Única nau do sonho insatisfeito
Que não teve regresso!

Miguel Torga
In Poemas ibéricos, 1965.



MIGUEL TORGA
Pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha.
Nasceu a 12.08.1907, em São Martinho de Anta, Vila Real e
faleceu a 17.01.1995, em Coimbra. 
Médico, colaborou na revista presença e foi diretor das revistas Sinal e Manifesto.




Miguel Torga foi galardoado com o Prémio Luís de Camões, em 1989.