10 de abril de 2016

Camões é o poeta da "utópica demanda de felicidade na terra", diz Helder Macedo

Helder Macedo (1935-)







"Poucos poetas mereceriam menos o destino póstumo de monumento nacional do que Camões. Fixá-lo numa imagem de grandeza esteriotipada é neutralizar a grandeza real de quem preferiu ao conforto das ideias recebidas a precária demanda de experiências ainda sem nome. Ao dignificar a experiência como base do conhecimento, Camões é um poeta moderno. Como os outros grandes perenes da literatura renascentista (Cervantes na prosa, Shakespeare no teatro, poucos mais), quando fala do seu tempo e para o seu tempo, está também a falar do nosso tempo e para o nosso tempo. Disto resulta que possa haver um Camões diferente (ou um Shakespeare, ou um Cervantes) de cada renovada perspectiva de leitura, muitas delas legítimas, nenhuma delas definitiva. Mas também significa que há sempre na obra de Camões alguma coisa que escapa a qualquer discurso crítico que pretenda afirmar mais do que interrogar as multifacetadas complexidades da sua obra. 

[...] A peregrinação registada na sua obra aponta para qualquer coisa de tão indefinível, mas revolucionariamente tão moderna, quanto é o direito à felicidade na terra. “Contentei-me com pouco” – disse este “homem de naturaleza terrível” para quem até o excesso sempre foi pouco – “só por ver que cousa era viver ledo”. O momento fundador da nossa contemporaneidade foi o brado revolucionário de Saint-Juste, “Le bonheur est possible”, a nossa utopia é ainda o sempre tão traído direito à felicidade na terra consagrado na constituição americana. O Camões nosso contemporâneo foi, assim, um poeta mais da dúvida do que da convicção, da rotura mais do que da continuidade, da experiência mais do que da fé, da imanência mais do que da transcendência, de uma sexualidade indissociável da espiritualidade do amor. E foi também, no fim da sua utópica demanda de felicidade na terra, o poeta da fragmentação que encontrou no lugar da felicidade que desejara. Não haveria, para ele, a final contemplação harmoniosa d’il sole e l’altre stelle porque a sua poesia inaugurou a percepção do mundo moderno, o mundo da diversidade, o nosso mundo de incertezas."  (p. 33-34)




Fonte:
Helder Macedo (2010), “Luís de Camões: o testemunho das cartas”, in Floema, n.ª 7, jul.-dez. 2010, p. 33-41.