5 de abril de 2016

Busque Amor novas artes, novo engenho - soneto

Fonte da imagem: Bloggs74

Busque Amor novas artes, novo engenho
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê:

que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como; e doí não sei porquê.

Luís de Camões

Fonte:

Lírica completa - II [Sonetos], org., pref. e notas de Maria de Lurdes Saraiva, 2.ª ed., revista, Lisboa: INCN, 1994, p. 296.