23 de agosto de 2020

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Camoniana

o blogue dos Estudos Camonianos


Retrato do poeta, c. 1573/5,por Fernão Gomes (1548-1612)
Luís de Camões (Lisboa, c. 1524 – Lisboa, 1580) é um dos maiores escritores do mundo, em língua portuguesa. Desde o Classicismo (séc. XVI) até à nossa contemporaneidade, que “o engenho e arte” manifestados pelo poeta na sua epopeia “Os Lusíadas” e nos seus poemas líricos tem fascinado o leitor comum e o leitor especializado, proporcionando extensa e diversa receção crítica (artigos, ensaios, teses académicas...), glosas de homenagem e emulativas, criativa recriação por parte de escritores. Em todas as épocas, contínuas gerações têm admirado a sua obra e nela encontrado o eco ou o desvelar dos seus próprios sonhos e anseios. Nesse sentido, como referiu o camonista Vítor M. Aguiar e Silva, “Camões é um clássico que tem sido moderno ao longo dos séculos”.

Pode navegar pelas suas múltiplas facetas através das páginas aqui apresentadas:

A sua vida divulga informação e recursos sobre a biografia do poeta.

A sua obra mostra inicialmente as obras camonianas arrumadas por género (lírica, épica, teatro, cartas) e, dentro de cada género maior, fornece os textos dos subgéneros. No final, providencia-se a ligação para as Obras digitalizadas de Luís de Camões, na Biblioteca Nacional de Portugal.

A época apresentará ligações para: os grandes movimentos culturais e filosóficos que modelaram o tempo histórico de Camões; a influência de autores espanhóis e italianos; autores contemporâneos de Camões.

Testemunhos consiste numa antologia de excertos de consagrados camonistas sobre a vida e a obra de Camões.

Fortuna crítica contém listas de referências (bibliografia passiva) sobre a vida e a obra de Camões: receção crítica (camonistas, teses académicas, atas de encontros, artigos de periódicos e números temáticos, etc.); receção criativa (obras literárias e artísticas inspiradas em Camões) e traduções noutras línguas.

Multimédia abre-se ao diálogo intertextual da obra camoniana com as artes: Iconografia, Cinema, Música, etc. Pode ser uma aliciante porta de entrada no universo literário de Camões.

Recursos didáticos disponibiliza "materiais" (fichas de trabalho, resumos, esquemas, documentos históricos, etc.) que podem orientar o estudo da obra camoniana de acordo com os Programas e  Metas Curriculares de Português. É um auxiliar do ensino (para professores) e da aprendizagem (para os alunos) no que concerne a leitura dos textos líricos (as Rimas) e da epopeia Os Lusíadas. Apresentam-se algumas referências bibliográficas e da Internet.

Utilitários reúnem informação prática e útil. São “ferramentas” de apoio ao navegante: Contactos; Mapa do blogue (um índice mais pormenorizado das principais secções do blogue); Siglas e Abreviaturas (utilizadas sobretudo nas referências bibliográficas); Glossário (de estudos literários, antropónimos, topónimos e vocabulário específico da obra e da época de Camões); Cursos de Estudos Camonianos; Notícias (Informação periódica recente, disponibilizada online).


Esta vai com a candeia na mão... - carta, escrita em Ceuta para um amigo, de Luís de Camões

 

Esta vai com a candeia na mão...

"Carta II. A outro amigo" (1598)

"Carta I, Escrita de Ceuta" (H. Cidade, 1946, 4.ª ed. 1985)


Esta vai com a candeia na mão morrer nas de v.[ossa] m[ercê] e se daí passar seja em cinza, porque não quero que do meu pouco comam muitos. E se, todavia, quiser meter mais mãos na escudela, mande-lhe lavar o nome, e valha sem cunhos.

 

La mar en medio, y tierras he dejado,

Y cuanto bien, cuitado, yo tenía.

Mas cuan vano imaginar, cuan claro engaño

Es darme yo a entender que, con partir-me,

De mi se a de partir un mal tamaño.

 

Quão mal está no caso quem cuida que a mudança do lugar muda a dor do sentimento! E se não, digam quien dijo que la ausencia causa olvido. Porque, enfim, la tierra queda, e o mais a alma acompanha. Ao alvo destes cuidados jogam meus pensamentos à barreira, tendo-me já, pelo costume, tão contente de triste, que triste me faria ser contente; porque o longo uso dos anos se converte em natureza. Pois o que é para mor mal, tenho eu para mor bem. Ainda que para viver no mundo, me debruo doutro pano, por não parecer coruja entre pardais, fazendo-me um para ser outro, sendo outro para ser um; mas a dor dissimulada dará seu fruito, que a tristeza no coração é como a traça no pano:

 

E por tão triste me tenho,

Que se sentisse alegria,

de triste não viveria.

Porque a tal sorte vim,

que não vejo bem algum

em quanto vejo,

que não nasceu para mim;

e por não sentir nenhum,

nenhum desejo.

 

Porque cousas impossíveis, é melhor esquecê-las que desejá-las. E por isso,

 

Só tristeza ver queria,

Pois minha ventura quer

Que só ela

Conheça por alegria;

E que, se outra quiser,

Morra por ela.

 

Pouco sabe da tristeza quem (sem remédio para ela) diz ao triste que se alegre. Pois não vê que alheios contentamentos a um coração descontente, não lhe remediando o que sente, lhe dobram o que padece. Vós, se vem à mão, esperareis de mim palavrinhas joeiradas, enforcadas de bons propósitos. Pois desenganai-vos, que dês[de] que professei tristeza, nunca mais soube jogar a outro fito. E porque não digais que não sou gente fora do meu bairro, vedes vai uma volta feita a este mote, que escolhi na manada dos enjeitados. E cuido que não é tão dedo queimado, que não seja dos que El-Rei mandou chamar; o qual fala assim:

 

Não quero, não quero

jubão amarelo.

 

Se de negro for,

Também me parece,

Quanto m’aborrece

Toda a alegre cor!

Cor que mostra dor

Quero, e não quero

jubão amarelo.

 

Parece-vos que se pode dizer mais? não me respondais: Quem gabará a noiva? Porque assentai que fui comendo e fazendo, ou assoprando, que não é tão pequena habilidade. E porque vos não pareça que foi mais acertar que querê-lo fazer, vedes vai outra do mesmo jaez, contanto que se não vá a pasmar:

 

Perdigão perdeu a pena,

Não há mal que lhe não venha.

 

Em um mal outro começa,

Que nunca vem só nenhum;

E o triste que tem um

A sofrer outro s’ofereça;

E só pelo ver conheça,

Que basta um só que tenha,

Para que outro lhe venha.

 

Que graça será esperardes de mim propósitos em cousas que os não tem pera comigo?, pois ainda que queira, não posso o que quero; que um sentido remontado de não pôr pé em ramo verde, tudo lhe sucede assim; e cada um acode ao que lhe mais dói. E mais eu que o que mais me entristece é contentamento ter, pois fujo dele, que minha alma o aborrece, [por]que lhe lembra que é virtude de viver sem ele. Porque já sabeis que magoa é, vê-lo-ás e não o paparás. Por fugir destes inconvenientes,

 

Toda a cousa descontente

Contentar-me só convinha.

De meu gosto;

Que o mal de que sou doente,

Sua mais certa mezinha

É desgosto.

 

Já ouviríeis dizer: Mouro o que não podes haver, dá-o pela tua alma. O mal sem remédio, o mais certo que tem, é fazer da necessidade virtude: quanto mais, se tudo tão pouco dura, como o passado prazer. Porque, enfim, Allegados son iguales, / los que viven por sus manos / etc. A este propósito, pouco mais ou menos, se fizeram umas voltas a um mote de enche mão, que diz por sua arte zombando, mais que não de sizo (que toda a galantaria é tirá-la donde senão espera) o qual crede, que tem mais que roer do que um praguento. Portanto recuerde el alma adormida, e mande escumar o entendimento, que de outra maneira, De fuera dormiredes pastorzico. E o meu, Senhor, diz assim:

 

Dava-lhe o vento no chapeirão,

Quer [lhe] dê, quer não.

 

Bem o pode revolver

Que o vento não traz mais fruito

E mais vento é sentir muito,

O que, enfim, fim há de ter.

O melhor é melhor ser

Que o vento no chapeirão,

Quer lhe dê, quer não.

 

Uma cousa sabei de mim: que queria antes o bem do mal, que o mal do bem; porque muito mais se sente o por vir, que o passado. E a morte até matar, mata. Não sei se sereis marca de voar tão alto; porque para tomar a palha a esta matéria, são necessárias asas de nebri. Mas vos sois homem de prol, e desculpa-me a conta em que vos tenho. E a que de mim vos sei dar, é:

 

Que esperança me despede,

Tristeza não me falece,

E tudo o mais m’aborrece.

Já que mais não mereceu

Minha estrela,

Só a tristeza conheço,

Pois que para mim nasceu

E eu para ela.

 

No mundo não tem boa sorte, senão quem tem por boa a que tem. E daqui me vem contentar-me de triste. Mas olhai de que maneira:

 

Vivo assim ao revés,

tomando por certa vida

certa morte,

com que folgo em que me pês,

pois minha sorte é servida

de tal sorte.

 

Uma cousa sabei: que o mal, inda que às vezes o vejais louvar, não há quem o louve com a boca que o não tache com o coração.

 

Ajudai-me a sofrer,

Vida tão sem sofrimento

E tão sem vida,

Ver que enfim, fim há de ter

Desgosto e contentamento,

Uma medida.

 

Atentai que não são maus confeitos de enforcado para os que estão com o baraço na garganta, cuidar que o bem e o mal, ainda que sejam diferentes na vida, são conformes na morte; porque vemos

 

Que não há tão alta sorte,

nem ventura tão subida,

ou desastrada,

a quem não assopre a morte,

não sopre o fogo da vida,

A seu fim todas as cousas vão correndo.

Nem há cousa a que o tempo não consuma,

nem vida que de si tanto presuma,

que se não veja nada, em se vendo,

 

que o mais certo que temos

é nada termos certo

cá na terra,

pois para seus não nascemos;

se o seu nos dá incerto,

nada erra.

 

Quero-vos dar conta de um Soneto sem pernas, que se fez a um certo recontro que se teve com este destruidor de bons propósitos, e não se acabou, porque se teve por mal empregada a obra; cujo teor é o seguinte:

 

Forçou-me Amor um dia que jogasse;

Deu as cartas, e [ás] de ouros levantou,

E sem respeitar mão, logo trunfou,

Cuidando que o metal que m’enganasse.

 

Dizendo, pois trunfou, que triunfasse

A uma cota de ouros que jogou;

Eu então por burlar quem me burlou,

Três paus joguei, e disse que ganhasse.

 

Príncipes de condição, ainda que o sejam de sangue, são mais enfadonhos que a pobreza; fazem com sua fidalguia com que lhe cavemos fidalguias de seus avós: onde não há trigo tão joeirado, que não tenha alguma ervilhaca. Já sabeis que basta um frade ruim, para dar que falar a um convento. Três cousas não se sofrem sem discórdia: companhia, namorar, mandar vilão ruim sobre cousa de seu interesse. Não se pode ter paciência com quem quer que lhe façam o que não faz. Desaguardecimentos de boas obras, destroem a vontade para não fazê-las a amigo, que tem mais conta com o interesse, que com a amizade, rezai dele que é dos cá nomeados.

 

Grande trabalho é querer fazer alegre rosto, quando o coração está triste: pano é que não toma nunca bem esta tinta, que a lua recebe a claridade do sol, e o rosto do coração. Nada dá quem não dá honra no que dá. Não tem que aguardecer quem no que recebe a não recebe: porque bem comprado vai, o que com ela se compra. Nada se dá de graça, o que se pede muito. Está certo que não tem uma vida, tem muitas. Onde a razão se governa pela vontade, há muito que praguejar e pouco que louvar. Nenhuma cousa homizia os homens tanto consigo como males de que se não guardaram, podendo. Não há alma sem corpo, que tantos corpos faça sem almas, como este purgatório, a que chamais honra, donde muitas vezes os homens cuidam que a ganham, aí a perdem. Onde há inveja, não há amizade, nem a pode haver em desigual conversação. Bem mereceu o engano, quem creu mais o que lhe dizem, que o que viu. Agora, ou se há de viver no mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo. E para muito pontual, perguntai-lhe de onde vem; vereis que algo tiene en el cuerpo que le duele.

 

Hora temperai-me lá esta gaita, que nem assim, nem assim achareis meio real de descanso nesta vida, ela nos trata somente como alheios de si, e com razão:

 

Pois somente nos é dada

para ganharmos nela,

o que sabemos:

se se gasta malgastada,

juntamente com perdê-la,

nos perdemos.

 

Enfim, esta minha senhora, sendo a cousa por que mais fazemos, é a mais fraca alfaia de que nos servimos. E se queremos ver quão breve é,

 

Ponderemos e vejamos,

que ganhamos em viver,

os que nascemos:

veremos que não ganhamos,

senão algum bem fazer,

se o fazemos.

 

E por que respeitando,

 

Que o por vir tal será,

entesouremos,

porque não sabemos,

quando a morte nos pedirá,

que lhe paguemos.

 

Nunca vi cousa mais para lembrar, e menos lembrada, que a morte; sendo mais aborrecida que a verdade, tem-se em menos conta que a virtude. Mas, contudo, com seu pensamento, quando lhe vem à vontade, acarreta mil pensamentos vãos, que tudo para com ela é um lume de palhas. Nenhuma cousa me enche tanto as medidas, para com estes que vivem a mor bonança como ela. Porque quando lhe menos lembra, então lhe arranca as amarras, dando com os corpos à costa, e se vem à mão com as almas no inferno, que é bem ruim guasalhado.

 

E pois todos isto temos

Não nos engane a riqueza

Porque tanto esmorecemos

E trás que vamos,

Já que temos por certeza

Que quando mais a queremos,

A deixamos.

 

Gastamos em alcançá-la

A vida, e quando queremos

Usar dela,

Nos tira a morte lográ-la;

Assim que a Deus perdemos,

E a ela.

 

Porque já ouviríeis dizer ninho feito, pega morta. Que me dizeis ao contentamento do mundo, que toda a dura dele está em quanto se alcança? Porque, acabado de passar, acabado de esquecer. E com razão, porque acabado de alcançar é passado, e maior saudade deixa, do que é o contentamento que deu. Esperai por me fazer m[ercê] q[ue] lhe quero dar umas palavrinhas de propósito.

 

Mundo, se te conhecemos

Porque tanto desejamos

Teus enganos?

E se assi te queremos,

Mui sem causa nos queixamos,

De teus danos.

 

Tu não enganas ninguém

Pois a quem te desejar,

Vemos que danas,

Se te querem qual te veem,

Se se querem enganar,

Ninguém enganas.

 

Vejam-se os bens que tiveram

Os que mais em alcançar-te

Se esmeraram;

Que uns vivendo, não viveram

E outros só com deixar-te,

Descansaram.

 

Se esta tão clara fé

Te aclara teus enganos,

Desengana,

Sobejamente mal vê

Quem com tantos desenganos

Se engana.

 

Mas como tu sempre mores

No engano em que andamos

E que vemos,

Não cremos o que tu podes,

Senão o que desejamos

E queremos.

 

Nada te pode estimar

Quem bem quiser conhecer-te,

E estimar-te,

Que em te perder ou ganhar,

O mais seguro ganhar-te

É perder-te.

 

E quem em ti determina

Descanso poder achar

Saiba que erra;

Que sendo a alma divina,

Não a pode descansar

Nada da terra.

 

Nascemos para morrer,

Morremos para ter vida

Em ti morrendo;

O mais certo é merecer

Nós a vida conhecida

Cá vivendo.

 

Enfim, mundo, és estalagem

Em que pousam nossas vidas

De corrida;

De ti levam de passajem

Ser bem, ou mal recebidas

Na outra vida.

 

Afuera, afuera, Rodrigo, que eu, se muito for por este caminho, darei em enfadonho. Ainda que me pareça já me não livrará privilégio de cidadão do Porto. E pois me vendo a vós, sofrei-me com meus encargos. E porque não digais que sou herege de Amor, e que lhe não sei orações: vedes vai uma, “Di Juan de que murió Blas?” com um pé à Portuguesa e outro à Castelhana, e não vos espanteis da libré, que eu em qualquer palmo desta matéria perco o norte. E os suplicantes dizem assim:

 

— Di, Juan, de que murió Blas,

Tan niño, y tan mal logrado?

— Gil, murió de desamado.

 

—  Dime, Juan, quien le engañó,

Que con amor se engañase

Pensando que el bien hallase,

Adonde el mal cierto halló?

Después que el engaño vio

Que hizo, desengañado?

Gil, morió de desamado.

 

Travou com ele pendença

Em ter razão confiado;

Mas amor, como é letrado,

Houve contra ele a sentença;

E com aquela diferença

Disse entre si o coitado:

— Gil, morreó de desamado.

 

Quem tem razão tão cerrada

Que não saiba, sendo rudo

E sem respeito,

Que, sem Deus, é tudo nada,

E nada, com ele, tudo

Sem defeito?

 

E sendo isto tão certo,

Como todos confessamos,

E sabemos,

Não demos pelo incerto

O em que tão certo estamos

Pois o vemos.

 

A tudo isto podeis responder, que todos morremos do mal de Faetão, porque del dicho al hecho, va gran trecho. E de saber as cousas, e passar por elas, há mais diferença que de consolar a ser consolado. Mas assim entrou o mundo, e assim há de sair; muitos a repreendê-lo, e poucos a emendá-lo. E com isso amaino, beijando essas poderosas mãos uma quatrinqua de vezes, cuja vida e reverendíssima pessoa, nosso Senhor, etc.

 

 

 

Fonte:

Rimas / Luís de Camões. Lisboa, 1598, 193-200.

Carta I, in Autos e cartas / Luís de Camões. – Vol. III das Obras Completas, com pref. e notas do Prof. Hernâni Cidade. 4.ª ed., Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1985. [1.ª ed., 1946], p. 225-242.





Quanto mais tarde vos escrevo... – carta, de Lisboa a um seu amigo, em que lhe dá novas da cidade, de Luís de Camões


Quanto mais tarde vos escrevo...


“Carta IV, De Lisboa, a um seu amigo em que lhe dá novas da cidade” (H. Cidade, 1946, 4.ª ed. 1985)

 

 

Quanto mais tarde vos escrevo, tanto mais me ficais devendo, e se uma vossa vale três das minhas, é necessário que faça quatro. E quanto às novas que me na vossa pedis, aguardei pondo à parte a muita necessidade que de vós me faz ter, que já não quero que as façais por mais amizade. Sabereis que eu ando não de paz, mas de guerra, laus Deo, e porque o ladrar sem morder nesta terra é como bucha de papel, que dá grande estouro e não leva pelouro, grandes mãos de ferro, capuzes de lâminas, maças de Hércules e golpes de Amadis, tudo contra o pobre de Camões.

 

Simão Rodrigues paga soldo aos maiores matadores desta terra, os quais já de in illo tempore lhe tinham cozinhado a morte. Este soldo se paga no tesouro, scilicet em talhadas de marmelada e púcaros de água fria, com uns debruns da vista da senhora sua irmã. Que ainda que esta mercadoria seja defessa, pelo senhor da fortaleza, nestas viagens da China, mais se ganha no furtado que no ordenado.

 

Vosso comborço Denis Boto foi espancado nesse ressio uma boca da noite, e não se sabe donde veio este desastre, mais que quanto os homens alcançam por sua lança, mas não é pera espantar se isto de longe se guarda, por quem por amores de Lia dá isto e mais se há de passar. E por que este senhor não cuidasse que era solus peregrinus in Jerusalem, lhe fez companhia daí a uns dias Gaspar Borges Corte-Real, à porta de Pêro Vaz. Dizem que com uns paus o sacudiram como oliveira. Cuidou ele que as pedras não falavam, e disse que dera de comer a seus companheiros com as orelhas que tirara, mas São Lucas afirma que só São Pedro tirou uma a Malco na prisão de Cristo.

 

É certo que cuidastes que esta cantiga que era a duo, pois desenganai-vos, que um mouro da estrebaria do Carneiro lhe levou as contrabaixas, outra noite, mas cuido que não levou mais que duas ou três cargas, porque as outras eram já gastadas, com as figuras acima escritas.

 

Parece-me que já gora querereis que troque as bolas, tocando outras histórias. Tratando algumas cousas das Ninfas da água doce, sou contente, porque sei que há pedaço que me aí aguardais.

 

Dizem que Francisca Gomes, que [já] não amassa no forno aonde soia, por que veio outro mercadante, competidor, e fez a cama fora do leito chorando. Gabai-me esta estratagema, que é de ambas as bandas como tafecira.

 

A senhora Isabel Barbosa, com a outra senhora, deixou a casa para Isabel Nunes, crendo que faria a sua vinda mais cedo, mas já não virá até que paira, salvo se vier também o amante cantante, que por nome não perca.

 

Bajana fez grande festa aos soldados de cima, caindo da sela como Lúcifer da cadeira, e despois da caída, foi salteado pelos franceses, aonde por partido lhe deixaram as armas, mas a verdade é que ele se remeteu a certas cantigas de volta, das que tinha feito, mas não lhe valeu, que aquele privilégio tinha quebrado já em Orfeu, que se escreve que foi moído com as feridas.

 

Parece-me que já terei merecido os mil bens, e porém, não quero que me digais que vos não meço sobre o funil; tomai mais esta minha Algozaria: a terceira Ninfa, Antónia Brás, foi levada a galera Nueva, aonde foram atados seus cabelos de ouro ao pé do mastro.

 

Aonde com triste som

lhe cantaram a mangana

e com esta dor profana

gritos dava de pasión

aquella Reina troyana.

 

Um talabarte zunia

na dama por que foi peca;

ela com dor dizia:

Atentai mano Fonseca,

la terrible pena mía.

 

Ao outro dia esperámos que a cidade fosse posta em armas, mas estorvou-lhe o rifão que está na regra de viver em paz, que diz, dos arruídos, mas a puta leu outra regra que está mais abaixo, que diz: “Atenta bem o que fazes, não te fies de rapazes”, e dês que caiu no entendimento dela, disse, ao seu homem: “Não me sirvais, cavalheiro, i-vos con Dios, que eu mudarei o vinte a parte onde não digam os de Alfama que não tenho guardador, de modo que já hão deixado os três Cupidos do Rompeu.

 

E se vos enfadardes de ler tanto, não acordeis o cão que dorme, mas sofrei mais estas duas regras, nas quais vos darei conta de mi, Já que ma vos não dais:

 

Dizem que é passado nesta terra um mandado para prenderem a uns dezoito de nós, e porque nestas pressas grandes sem vós não somos nada, sabei que deste rol vós sois o primeiro, como sempre fostes em tudo. A razão dizem que é por um homem fidalgo, que dizem que foi espancado uma noite de São João pelo senhor João de Melo, e ele saberá se é assim.

 

O senhor António de Resende beija as mãos a vossa mercê, o mesmo faz Pero Ribeiro Serpe.

 

Depois de ter escrito, soube que não foi Afonso de Bajana o que deixara a espada, senão que fugira, e a espada foi de Simão Ribeiro, tanto monta.

 

Trazei de lá estudado um conluio que faça a Brás Antónia porque, pedindo lhe sobre aposta seu corpo, me fez perder, cousa de que ando muito magoado, e desejoso de vos ver nesta terra. – Vale.

 

 

 

Fonte:

1.     [...]

2.     Carta IV, in Autos e cartas / Luís de Camões. – Vol. III das Obras Completas, com pref. e notas do Prof. Hernâni Cidade. 4.ª ed., Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1985. [1.ª ed., 1946], p. 259-264.